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(12/02/2019)
Das redes às ruas: O desafio da mobilização digital para os Segmentos


Das redes às ruas: O desafio da mobilização digital para os Segmentos

Começou em 2013. Após um aumento de 20 centavos nas passagens de

ônibus de São Paulo um grupo de pessoas ligadas ao Movimento Estudantil

da cidade criou um evento no Facebook. Perfis de todos os cantos foram

clicando em “Confirmar Presença.” O evento bombou na rede social e no

dia e hora marcados a cidade parou com a multidão que se encontrava nas

ruas a protestar contra aquilo que diziam não ser só 20 centavos. A mídia

tradicional obrigou-se a cobrir minuto a minuto o que acontecia.

Rapidamente vários eventos no mesmo molde foram criados com

convocações para outras cidades do país e tendo como bandeira os mais

diversos motivos de insatisfação. As pessoas por trás daqueles perfis não só

confirmavam presença nos eventos virtuais, como compareciam em massa

a manifestações das quais nem se sabia, ao certo, quem havia convocado.

Partidos, entidades e movimentos sociais tradicionalmente organizados

encostavam seus trios elétricos na tentativa de disputar a narrativa e

potencializar suas lideranças. Ao mesmo tempo, a polícia tentava dispersar

o mar de gente com bombas de gás, balas de borracha, cavalaria e muita

violência. Novas manifestações foram marcadas e governos se

empenhavam para estabelecer um pacto entre os manifestantes e o Estado

realizando reuniões com as lideranças políticas do movimento como se isso

fosse capaz de minimizar a violência e dar um pouco mais de organização

às ações confirmadas no Facebook e viralizadas por aplicativos como o

Whatsapp.

Jornalistas e repórteres dos canais tradicionais eram agredidos e expulsos

das manifestações, enquanto novos grupos de esquerda e direita – como

Mídia Ninja, Jornalistas Livres, MBL e Movimento Contra a Corrupção –

informavam sobre os acontecimentos e cresciam em larga escala com uma

cobertura feita apenas com celulares a amparada por memes e versões

apresentadas por seus influenciadores digitais (pessoas que traduziam o

momento político através de vídeos no Youtube e de suas páginas na rede

social de Mark Zuckerberg).

Uma nova linguagem estava posta e dominá-la passou a ser ponto

fundamental na disputa das mentes e corações de brasileiras e brasileiros

por trás de cada perfil na internet. A era das notas oficiais de partidos e

entidades vem perdendo espaço, , para pessoas que com uma câmera e um

pacote de dados decente emitem suas opiniões em canais e páginas cada

vez mais assistidos e relevantes no debate político e social do país.

Essa conjuntura que se consolida coloca os movimentos sociais e os

segmentos organizados dos partidos de esquerda num inovador processo de

construção de bases e de ampliação de um projeto político que dialogue

com essa nova sociedade, ultrapasse as paredes das sedes físicas dos

partidos e canalize a indignação popular para uma organização dentro de

um plano de formação política sintonizada com aqueles que sempre

lutaram pela liberdade e contra todo tipo de discriminação e desigualdade

social.

Nesse aspecto, gostaria de levantar aqui três pontos fundamentais para

aqueles segmentos e organizações que queiram e estejam dispostos a

encarar o desafio de disputar a sociedade com as forças fascistas e

antidemocráticas que sempre foram alvos de combate das forças

progressistas em todo processo histórico do país:

1 – O Brasil são milhões de uns!

Sim, eu sei que esse foi um slogan criado pela Rede Globo no último ano e

isso demonstra a preocupação do maior canal tradicional do país com sua

perda de espaço para as redes sociais e o novo modelo de comportamento

da sociedade. Segundo dados do Agência Nacional de Telecomunicações

(Anatel), em 2018 havia no Brasil 238 milhões de aparelhos celulares,

número que tende a crescer mês a mês. Olhe nos pontos de ônibus,

restaurantes, praças, aeroportos e você perceberá que as pessoas estão

sempre com os olhos voltados para seus smartphones. Talvez você mesmo

já tenha pausado a leitura desse texto para verificar se alguma mensagem

chegou e fará isso de novo assim que terminar a leitura ou até mesmo antes

disso.

É necessário, portanto, que os conteúdos e argumentos busquem se

comunicar com uma pessoa de cada vez, trocando termos como “defesa do

povo” por “sua defesa” e “contamos com a participação de todas e todos”

por “conto com a sua participação”. Resumindo, a nova comunicação fala

com cada usuário individualmente.

É algo como traduzir a máxima marxista “Trabalhadores do mundo inteiro,

uni-vos” para: “você, trabalhadora e trabalhador, una-se a nós, que também

trabalhamos e não somos patrões”.

2- Os segmentos precisam ser vários uns

Aqueles que já contam com um tempo de vida partidária e passaram vários

processos de formação política (eu já conto com dezenove anos de filiação,

nos quais muitos como dirigente) estão adaptados em buscar informação

em publicações oficiais e investir horas do tempo debruçados na literatura

que forma as bases e o pensamento do PSB e de seus segmentos. No

entanto, se o objetivo é chegar nas bases não politizadas e ainda não

engajadas em projeto de socialismo e liberdade para a nação, é necessário

que cada militante de segmento esteja capacitado, a partir de seu aparelho

celular, a ser um influenciador digital, seja através de um canal no

Youtube, seja através de página, perfil em rede social ou até mesmo uma

lista de transmissão no WhatsApp. Youtubers hoje influenciam muito mais

e agregam mais seguidores para si do que qualquer partido organizado no

Brasil. Basta ver a quantidade de influenciadores digitais que conquistaram

mandatos parlamentares e todo o alarde feito em torno da declaração de

apoio de Felipe Neto ao candidato Fernando Haddad no segundo turno das

eleições.

3 – O modelo ideal é a criatividade

Se há algo em comum entre perfis, canais e páginas que agregam milhões

de seguidores, influenciam a opinião dos usuários e dominam os grupos de

WhatsApp é a criatividade. A liberdade total de criação e a exploração das

diversas linguagens possíveis, principalmente num país tão diverso e rico

em capital humano como o nosso se destaca. Memes, vídeos de opinião, de

humor, textos grandes ou frases de impacto no Twitter, todos encontram

seu público e criam uma identificação com os diversos nichos de usuários e

se espalham pelos celulares à medida que conseguem gerar empatia com as

várias formas de pensar e sentir o mundo de quem está do outro lado da

tela. Um dos segredos das maiores correntes de pensamento em voga nos

dias atuais é que elas se formam através de diversas redes, diferentes em

forma e conteúdo, mas muito próximas em princípios e conceitos base,

assimilados pouco a pouco por quem consome tais conteúdos e mesmo sem

perceber, vai formando sua opinião e se engajando em suas causas.

Por fim, não há algo definitivo e nem mesmo uma formula pronta que se

possa apresentar, uma vez que a internet é dinâmica e se parece mais com

as nuvens do que se dizia da política até pouco tempo atrás. É necessário,

portanto, que os segmentos estejam não apenas organizados, mas em

constante processo de pesquisa, formação e produção de conteúdo,

considerando sempre que um partido é formado dos mais diversos tipos de

pessoas. Desta forma os segmentos passarão a ser fios condutores dos

ideais de liberdade e igualdade social e se fortalecerão, valorizando o

potencial criativo e de transformação de cada militante, e respeitando a

diversidade e peculiaridade dos membros da sociedade a qual pretendemos

mudar.


Fabrício Moser